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  Medalha R. Ferreira
 

.A Associação Norte-Nordeste de Química outorga a Medalha Ricardo Ferreira a profissionais da área de Química que tenham contribuído de forma significativa para o progresso dessa ciência nas regiões Norte e/ou Nordeste.

Já foram agraciados com a Medalha Ricardo Ferreira:

Gilberto Fernandes de Sá (UFPE)

Sérgio Maia Melo (UFC)

Ícaro de Sousa Moreira (UFC)


RICARDO FERREIRA

.....Entrevista extraída de: R.F. de Farias, Para Gostar de ler a História da Química, vol. 2, Editora Átomo, Campinas, 2004.

 

....Ricardo de Carvalho Ferreira nasceu em Recife (PE), em 1928. Ainda na ativa, apesar de seus atuais 75 anos, Ricardo é professor emérito da UFPE, pesquisador emérito do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas). Foi professor de diversas instituições, nacionais e estrangeiras, entre elas a Universidade de São Paulo, a Indiana University e a Columbia University. Numa honraria rara para um brasileiro, o Earlham College, instituiu, em 1995, uma bolsa de estudos que leva o seu nome. Em 1988, o nº 1 do volume 11 de Química Nova (periódico da Sociedade Brasileira de Química) foi publicado em sua homenagem. Ricardo foi ainda recentemente indicado como presidente de honra da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). Certamente a honra maior será da SBPC.
Definindo-se como um físico-químico, Ricardo possui vasta obra em química teórica, tendo se dedicado, nos últimos vinte anos, à chamada biologia molecular.
.....Em função de sua longa vida profissional, que, esperamos, será ainda maior, e tendo tido contato e/ou convivido mais estreitamente com grandes nomes da ciência do século XX, Ricardo constitui-se em verdadeiro depositário vivo de grande parte da história da química no Brasil.
.....Uma das características marcantes do Prof. Ricardo Ferreira é sua amabilidade no trato com os químicos mais, sempre disposto a ouvir, e, como todos que o conhecem mais de perto sabem, a falar sobre a química e a ciência em geral.
Durante a 25ª Reunião Anual da SBQ, tive a honra e satisfação de saber que Ricardo havia comprado meu modesto Para gostar de ler a História da Química. Brinquei com alguns amigos dizendo que, mesmo que mais nenhum exemplar fosse vendido, já estaria satisfeito.
.....Em junho de 2003, em uma de minhas idas periódicas ao Departamento de Química Fundamental da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) tive a oportunidade de fazer uma pequena entrevista com o Prof. Ricardo, composta por seis perguntas, voltadas para a finalidade do presente livro. Uma entrevista mais extensa, enfocando outros aspectos do pensamento político e científico do Prof. Ricardo pode ser encontrada no livro Cientistas do Brasil, editado pela SBPC (ver lista de referências). Eis, a seguir, a pequena entrevista.

 

Entrevista completa

Em sua opinião, qual a importância do estudo da história de uma determinada ciência, para aqueles que a praticam ?

Porque penso ser mais fácil aprender um tópico, de qualquer Ciência, se contarmos a ele [estudante] como estavam as coisas, e em que consistiu a inovação.
Claro que é possível se ensinar Química de modo direto, digamos assim, como fazem a grande maioria dos livros didáticos. Sem dúvida, no método direto poupa-se tempo e dinheiro. Mas não fica mais fácil aprender o que é um óxido, contando que, antes de Lavoisier, pensava-se que ao se calcinar um metal este perde algo chamado flogisto, e que, portanto, o que hoje chamamos de óxido era conhecido como metal deflogisticado? Mas então esse material deve pesar menos que o metal original? Não, na realidade pesa mais! E como se sabe que o metal deflogisticado pesa mais do que o original? Aí entram as balanças, etc.

Se o Sr. tivesse que citar os três químicos mais importantes de todos os tempos, quais nomes escolheria ?

Para esta pergunta deve haver tantas respostas quantos químicos existem. Eu escolho os seguintes:
a)Lavoiser. Tente ler um trabalho de Química do século XVIII e você não entende quase nada. Mas ainda dá para ler, e se aprender Química, lendo-se o "Traité Élementaire de Chimie" de 1789. Ele foi mesmo o fundador da Química.
b)Cannizarro, e por razões semelhantes. Antes do "Sunto di um Corso de Filosofia Chimica", as fórmulas das substâncias não eram bem definidas, cada químico usava um sistema, quase. A partir de Dalton, a água era escrita como HO, etc. Foi Cannizarro, ao mostrar como se distingue os pesos atômicos corretos (sigam o Princípio de Avogadro!), quem forneceu fórmulas moleculares corretas, seguras. Sem ele, como teríamos Kekulé e as fórmulas estruturais? E podemos imaginar a Química Orgânica, base de uma revolução industrial química, sem fórmulas estruturais corretas? Daí minha inclusão de Cannizarro. Perto dele, na minha opinião, estão Mendeleev, van't Hoff, e Bayer.
c) [Linus] Pauling. Fundiu seu conhecimento de Mecânica Quântica com um agudo senso geométrico, aprendido ao determinar estruturas cristalinas na sua tese de Doutoramento, e criou a Química em 3D. van't Hoff e Werner estão próximos dele neste particular, mas Pauling entrou em Biologia Molecular, em Genética, em Evolução Molecular

O Sr. acredita que a atual divisão da química em Analítica, Orgânica, Inorgânica e Físico-Química permanecerá ainda por muito mais tempo, ou, ao contrário, caminha-se para o surgimento de uma abordagem holística do estudo da ciência química ?

Creio que a divisão da Química nas áreas tradicionais é claramente histórica, como o é também a divisão das Ciências naturais em Física, Química, Biologia, etc. Em Química a área fundamental, epistemologicamente, é a Química Analítica. Queremos saber, em Química, de que são feitos os materiais que nos rodeiam (e neste "nos rodeiam" incluo os planetas, o Sol, as estrelas, etc), como se relacionam suas partes, como podemos obter aquele material, quais são suas propriedades, e tudo isto depende de Química Analítica, dos métodos cada vez mais sofisticados da análise.

O Sr. acredita que está próximo o dia em que um brasileiro ganhará o prêmio Nobel de química, ou a predominância será sempre de europeus e americanos ? Já houve algum brasileiro merecedor dele ?

Está claro que o Prêmio Nobel está sujeito a grandes pressões políticas e econômicas (lobbying). Basta ler as atas, publicadas faz alguns anos, das reuniões da Fundação Nobel entre 1901 e 1930, publicadas, é óbvio, porque as tensões daquela época desapareceram, tornaram-se históricas apenas. Nas atas vemos a grande influência das Potências Européias dominantes, Inglaterra, Alemanha e França, alem da influência escandinava (afinal, o Prêmio é deles!). O lobby americano era então pequeno, porque a Ciência Americana estava nos começos. Sim, lembremos que os raios-X. a radioatividade, a teoria dos quanta, o electron, o núcleo atômico, a teoria da relatividade, a genética, a mecânica quântica, tudo enfim é europeu!
Já perdemos dois Prêmios Nobel, um com Carlos Chagas em Medicina, o outro com Cesar Lattes em Física. Creio que o que devemos fazer já estamos fazendo, somente que devemos fazer mais e melhor: investimento, valorização das competências, bom ensino, até a formação de uma tradição científica nacional. É muito razoável que, em um País como Brasil, a Química dos Produtos Naturais seja uma área avançada. Creio que nosso maior pesquisador nesta área, Otto Gottlieb deu contribuições que valem o Prêmio Nobel. Penso também que a maior descoberta química de um brasileiro foi o fenômeno da "sedimentação auxiliada pela osmose" (osmotic assisted sedimentation), de Fernando Galembeck, em 1979. Nesta época de equipamentos custosos, Fernando percebeu o fenômeno, totalmente desconhecido da Química, praticamente com vista desarmada. Depois desenvolveu equipamentos para seu uso na determinação de pesos moleculares de polímeros, como proteínas.

Como o Sr. vê a célebre divisão entre ciência (pesquisa) pura e aplicada ?

Os burocratas dizem agora que o ideal é o "retângulo de Pasteur", isto é, pessoas com competência em ciência pura e nas aplicações da Ciência. Como Louis Pasteur, que descobriu as bases moleculares da atividade ótica, a quiralidade molecular, e produziu vacinas, como a anti-rábica. E o que dizia Pasteur sobre este ponto? "Não há Ciência aplicada", dizia ele, "há apenas aplicações da Ciência". Portanto, como Pasteur, eu penso que o importante é ter uma boa Ciência, as aplicações virão naturalmente. Esta é a minha resposta.

Se o Sr. pudesse se dirigir a todos os jovens químicos do Brasil, quais conselhos o Sr. daria ?

Diria que estudem, não apenas Química, mas também Matemática, Física, Português, História. Formem uma concepção racional do Mundo. Adquiram uma cultura razoável nas artes, para que a vida seja prazerosa. Amem muito, na minha opinião, o sexo oposto.

 

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